sábado, 8 de junho de 2013

Minha Infância




MINHA INFÂNCIA

 (Parafraseando  o poema ”Infância”  de Carlos Drummond de Andrade)



Meu  pai vestia  o paletó, ia trabalhar.
Em lugares que eram letras, não palavras
I B G  E , U F B A
 e eu soletrava , sem entender.
Minha mãe ficava em casa, comigo.
Minha irmã ia para a escola , onde eu queria estar.
Eu, menina, naquelas manhãs, entre figuras e letras
Lia devagarzinho “João Bolinha virou gente”
A história de um boneco feito de bolinhas,
Que um dia amanheceu menino.
Comprida história que não acaba mais.
No meio dia branco de luz, dona Rosa
A velhinha cega da janela em frente, chamava-me,
dizia que eu era a mais bonita flor do seu dia,
enquanto fazia  café.
Café preto que nem era ela
Café gostoso
Café bom.
Minha mãe me olhava, dizia baixinho:
 “Psiu..não pergunte como ela lhe vê
ela pode enxergar além, com o coração!”
E eu via: para a janela onde pousou uma borboleta azul
Ela apontava e, poética, dava um suspiro, que fundo!
Longe, meu pai aparecia
Voltando para casa,
No alto sem fim da ladeira
E eu esperava feliz para lhe mostrar  que eu já sabia
enxergar além das palavras, aprendendo a ler e escrever.
E eu não sabia que a minha história
era mais bonita que a de João Bolinha:
Eu também virava gente.

  

Susana Meirelles




Leite e Lágrimas


Macias são as mãos, as mantas
e o amor.
O calor do corpo,
acolhedor,
acolhe a dor.
Mãe amamenta.
A Luz do sol insiste nos olhos mal abertos.
Ao longe,
uma música suave
toca tanto
quanto as mãos, o leite.
Como a vida,
Convida-me.
Ó Vida! invade-me!
Quente como o leite.
De você, nada sei
mas já lhe sinto
nas entranhas.
Nesse espaço silencioso
onde uma aliança
se faz e me faz.
Aqui: luz e música.
Mãe, mãos e mantas
Imantam-me.
Uma dor e um amor
Me alimentam.


Susana Meirelles







Aurora


O coração descompassado
entre o medo e a sede
de saber.
As mãos pequeninas não respondem
a tanto que há em mim.
Como traduzir?
Amarelo, marrom, vermelho...
O desenho.
O sol cor de ouro
minha força, minha vida
ainda por descobrir.
Ali, atrás das pedras
timidamente ,revela-se
Eu aqui, sala de aula
A luz ainda escondida
vibrando , pulsando.
Minha aurora
entre um pedaço de giz
e lápis de todas as cores.



Susana Meirelles









Laços e Cercas


A menina ri
Alegre.
Entre laços e cercas.
entrelaces faz
com seu riso
e uma imensa doçura.
Amada é
essa menina,
nos doces laços que faz
em torno de si,
como cercas.
A menina abraça a boneca que ri
E também ri como boneca.
A menina entre risonha e triste,
(Como são as bonecas),
nem sabe
que sonha,
entre laços e cercas
em um dia,
rindo da boneca que foi
tornar-se real.

Susana Meirelles





DEZ ANOS

Recolhi das nuvens
um pouco dos sonhos
dos que gastam seu tempo
 a contemplá-las.
Corri pelo campo
espalhando-os
diluindo temores,
como fumaça.

Olho, recordo:
eram muito brancas
as nuvens no céu
dos meus dez anos.

Com a massa dos meus desejos,
gotas de chuva e  raios de sol
eu  modelava  o branco em flocos.
E  o que restava era muito azul.

Todos os  dias
A manhã sendo,
antes  que eu  olhe o céu
aquela  menina em mim, desperta
e faz perguntas
ao  meu coração.

Todas as noites
a noite sendo,
antes de dormir,
aquela menina  em mim
não entende minhas respostas
se cala e volta a sonhar.
Enquanto eu,
a dor meço.




                                                                     Susana Meirelles




O Tamanho do mundo


Danço
na ciranda do mundo
que ficou Maior do que quatro paredes
e tem muito mais do que quatro pessoas.
O mundo virou caleidoscópio,
girando, girando
nos braços da amizade.
O mundo cabe num caleidoscópio
da menina francesa
que me mostrou o tamanho que ele tem.
E, .na rede de sonhos e ilusões
que docemente se forma.
serei dançarina
terei asas para voar
além , muito além
das quatro paredes.
da vida minha
Eu, feliz ,ainda não sabia,
que o mundo, como caleidoscópio,
é mágico , mistura cores
nas suas surpreendentes
combinações.
O mundo é do tamanho do que se acredita,
por isso caberá para sempre,
na palma da nossa mão.



Susana Meirelles





Pares


Pares se fazem
em toda a parte
Circundam-me.
Menino e menina
Bem- me- quer
Mal -me- quer.
Parece que se aproxima um novo tempo
em que a vida vai me pedir
o que ainda nem sei dar.
Por enquanto, converso com passarinhos
e assisto meus desenhos animados.
No papel, meus desenhos ganham vida.
Animam-se.
Meu caderno está cheio de poemas
que recolhi por ai
desenhando flores e corações.
Ainda não quero ir
para o mundo dos adultos
Que conversam quietos, não se agitam como eu.
Prefiro brincar com a vida
treinando muito
 para viver
Depois.


Susana Meirelles






Crepúsculo


Na janela sinto a sua dor
e assisto ao meu crepúsculo, refletido em suas lágrimas.
De mãos dadas com você e com o sol do amor no meu peito,
daria tudo para presenteá-la
com a infância que tanto lhe alegra
e que abandono.
O tempo me afasta do seu doce colo,
do seu acalento
e daquela região mágica e colorida
das histórias que você criava
só para encantar o meu mundo.
Em breve, muito em breve,
O tempo nos afastará
E sei, o que você vê no meu crepúsculo
é a sua ida
refletida nesta lágrima
povoada de sombras.
Não , mãe,
não posso deter o sol que em  mim mergulha,
ele ressurgirá
fazendo-me mulher.
Mas aqui, agora, nessa janela, 
sei que assistimos a todas as cores
de um momento eternizado.







sexta-feira, 26 de abril de 2013

Poesia em Imagens -Alma ao Vento


Poesia em Imagens
Alma ao Vento
Em resposta ao Desafio Poético de Tânia Contreiras




Alma ao Vento

Uma suave urgência
Perturba-me
E eu  consinto, me entrego
Sem anteparos
Uma cena ultrapassa-me
Um olhar arrebata-me
E um cálido  silêncio
Chama meu nome.
Sou folha em branco
Desnuda-me
Desfolha-me
Mais um pouco.
De beleza transbordarei
Minha  alma  seguirá  ao vento
Até que uma palavra risque-me
E um poema escreva-se
Em mim.

Susana Meirelles






BRINDE


Há taças
e traças um caminho
elas partem,
como partidos estamos
Divididas,
 como nós, duvidamos
o que contemplam?
o sangue? o vinho?
 a vida brindada
a vida, antes da queda.

Susana Meirelles






O CÉU

Com os pés sem asas
Subi escadas
Nas pontas dos dedos
Vivi todo peso
do corpo e dos tijolos
com que construí minha história.
Contudo, recordo-me,
não do chão, mas das nuvens
Não da dor, mas do vento
Não da lágrima
Mas  de quão azul
 foi o céu
Dos meus dias.

Susana Meirelles






ENLEVO

Elevo-me
Levo-me a ti
É teu o olhar
Que rompe amarras
Em mim.
 Amarro -me
nessa desrazão
sem razão
Flutuo
Enlaçando-me em  poesia.
laçando-te,
Torno-me  criança em vésperas
Antegozo a festa
Gôzo.
A tudo antecedo
Antes
Enlevando-me
Levando-me
Bem sei ,
Ainda é cedo
(Demasiado cedo)
Mas a esse enlevo
Cedo.

Susana Meirelles






PEDAÇO SEU





Sua lágrima
Lago
onde precipito-me,
 avanço.
Nela vejo histórias,
Memórias
Arcos, velas, mares
Solitária estrela
a me guiar
nas  tempestades
do agora.

Sua lágrima,
poço sem fundo
Passagem
Para fundo
(Tão fundo)
Em mim.
Sua dor é punhal
É Ferida
Partindo-me
Dilacerando.

Sua lágrima
Revela  segredos
Mistérios dos seus nãos
Ou flor que desabrocha
Nas pétalas dos seus sins

 Nela escuto vozes
Canções,  notas musicais 
E leio encantada,
Versos que lhe emocionaram
Revelando o que tentava em vão me ocultar.

É simples sitio em beira de estrada
Paragem e mãos dadas.
Sua  lágrima,
Meu sonho de encontro
Na minha pele absorvendo
E nos meus olhos
Úmidos, sendo,
O melhor espelho de mim.

Sua lágrima
Pedaço seu
Que extravasa
 E amo.

Susana Meirelles








Náufraga


Gira o mundo
Pesa o passo
Sobe escadas
Apressada.

Teme
 Encontra
Confronta
Náufraga.

Vira o tempo
Fecha a porta
Acerta ponteiros
E os passos

Novos espaços
Para pés descalços
Tempo revira
revolta
não volta.

Céu e nuvem
Chuva e estrelas
Areia e Pedras
Vida e poesia
Se o amor é dor,
Deixa, estilhaça
E se o tempo é nau, confia
Embarca.

Susana Meirelles








A OUTRA PARTE


Metade é verde, é viço
Outra madura, fruta escura.
Metade , inteira
A  outra é marcada.
Uma metade é leve
A outra, profunda.
Metade é voo, é salto
Outra, mergulho.
Uma é sonho
A outra é sensata.
Uma metade admira, surpreende-se
A outra se entedia, tudo sabe.
Uma tem medo, é inicio.
Outra aceita, se cala
Uma parte extravasa.
Transborda.
Outra reserva, se guarda.
Uma parte é ponte, transporta
A outra é chegada.
Duas partes
Duas metades
Metade é a beleza da vida
E do viver , a beleza,
 a  outra parte.


Susana Meirelles







DEZ ANOS

Recolhi das nuvens
Um pouco dos sonhos
Dos que gastam seu tempo
 a contemplá-las.
Corri pelo campo
Espalhando-os
Diluindo temores,
Como fumaça.

Olho, recordo:
Eram muito brancas
As nuvens no céu
dos meus dez anos.

Com a massa dos meus desejos
gotas de chuva e  raios de sol
Eu  modelava  o branco em flocos.
E  o que restava era muito azul.

Todos os  dias
A manhã sendo,
Antes  que eu  olhe o céu
Aquela  menina em mim, desperta
E faz perguntas
ao  meu coração.

Todas as noites
A noite sendo,
Antes de dormir.
Aquela menina  em mim
Não entende minhas respostas
se cala e volta a sonhar.
Enquanto eu,
a dor meço

Susana Meirelles






AZULANDO


Sob os olhos do mar
Um menino brinca
Com o Sonho
Castelos faz
Desfaz
E refaz.

Sob os olhos do mar
Um menino brinca
Com o Tempo
Faz Mágicas :
Rememora
Remoça
A tudo renova

Sob os olhos do mar
Um menino brinca
Com a Vida
Joga
E enigmas
Aprofunda
Desvenda
Desnuda.

Sob os olhos do mar
esse menino nos ensina
que Sonho Tempo e Vida
na  roda do nosso destino
dançam  sempre  conosco,
a brincar.

Aos olhos do mar
O menino é azul
E  as tempestades
O mar vai acalmando
E sua alma
Guardando
Azulando
Amando.


(E foi tão belo de se ver
aquele menino a azular
Que mesmo a morte
 - negra Morte-
Apenas quis,
Com o menino,
Brincar)


Susana Meirelles





Caixa Fechada




Caixa

 quando se abre

Mão que afaga
Na Ponta dos dedos
Dança um amor sonhado.
É Lágrima
Dor de historia
Uma Longa memória.
Talvez uma Palavra lacrada
Um Segredo
(Quando  voa
da garganta
todo medo)
Caixa 
quando se abre
É poema
De vida
 quase decifrada
Mas ainda encantada.
Toda vida
 é  caixa fechada.

Susana Meirelles










sábado, 6 de abril de 2013

Série gente: Um Ponto de Interrogação







Tatiane chega para o estágio e logo me surpreendo com sua dedicação, pontualidade, desejo de aprender, crescer. Entre tantas qualidades, porém, surpreende-me, sobremaneira, a sua sensibilidade.
Trouxe muitas perguntas. Perguntas frequentes, inteligentes, profundas. Ou simples, só confirmando o que já sabia. E eu as respondia como podia, ou me calava, escutando a construção de suas respostas.
Um dia notei que seu cabelo louro, caído na testa, em cacho, formava um ponto de interrogação. E com isso brincávamos. Eu sempre observava: cabelos mais lisos, menos perguntas; cabelos mais cacheados, perguntas abundantes.Pontual, chegava antes de mim e me aguardava, sentada à mesa, na sala,  livro na mão e a interrogação no meio da testa.
Coordenávamos juntas os grupos de mães de crianças com deficiência e os grupos de acolhimento de pessoas com estomia. Eram muitas histórias que escutávamos. Ora muito tristes, ora bonitas, de superação.
Um dia, depois de alguns grupos e algumas histórias, Tatiane me fez uma grande pergunta: “Susana, psicólogo pode chorar?” Olhei bem: lá estavam o ponto de interrogação na testa e os olhos marejados  de lágrimas.
 Houve um tempo em que se acreditou que o psicólogo teria que sacrificar seus sentimentos, em nome de uma neutralidade ideal e impossível de alcançar. Sabemos que dentre as ciências humanas que emergem no século XIX, a Psicologia também traz como ideal da ciência da época a neutralidade e a crença na possibilidade da apreensão objetiva do mundo e do humano, sem interferência do observador. Hoje sabe-se quanto é  preciso que o psicólogo se conheça a  fundo: suas dores, sua história, aceitando seus sentimentos,  para ajudar o outro a ver a si mesmo. Daí a importância das supervisões, como um espaço onde os sentimentos que emergem da relação com o paciente, podem ser acolhidos e utilizados como instrumento de cura.
De um lado a outro aqui no CEPRED, convivemos com pessoas que estão, de alguma forma, superando perdas. Pode ser de um membro do corpo, de uma função, de um ideal, de um filho sonhado, de uma vida desejada. Por isso, escutar, como escutamos essas pessoas, é lição diária para percebermos que, o que da vida parece difícil, impossível, ou mesmo trágico, pode ser vivenciado com dignidade, aceitação inteireza.
Na verdade, Tatiane, todos nós, aqui, no CEPRED, estamos num estágio, cujo aprendizado se dá até nos corredores e naquelas salas de espera por onde iniciamos o seu estágio. Todos nós, aqui estamos aprendendo a aceitar a e amar a vida como ela é, em toda a sua extensão e profundidade.Estamos aqui vivenciando a constatação de que é possível viver com nossas faltas.
Nessas lições do nosso estágio por aqui, nos emocionamos porque também nós convivemos com faltas, porque também nós temos histórias de superação para contar, porque também nós somos humanos.
No entanto, aqui, ao seu lado eu muito sorri. Sorri porque você conhece as respostas às suas perguntas e pensa que é o outro quem poderá respondê-las. Sorri porque você não percebeu o quanto suas perguntas deram direção ao seu estágio. Sorri porque eu adorei sentir seu respeito e atenção diante de tudo o que escutamos, e , se foram histórias que tocaram seu coração, o meu também foi tocado quando lhe vi disfarçando as lágrimas para esconder a sua rica sensibilidade.
Carregue com você a sua pergunta, pois, no seu percurso profissional você encontrará respostas:
 - Tatiane, psicólogo pode chorar?
Desejo que sua sensibilidade seja o seu guia e que essa lágrima que insiste em sair dos seus olhos, lhe dê a visão clara, mais nítida possível de você mesma e do outro. Como boa psicóloga que já é, você faz de si mesma um ponto de interrogação e, assim, confio que fazendo-se enigma que busca respostas em si,  ajudará o outro a responder seus enigmas.
Tatiane, ao seu lado sorri muito e quando choramos juntas, que bonito  foi.



Susana Meirelles







domingo, 17 de fevereiro de 2013

Lutos e Lutas








Pelas folhas secas
Atiradas ao vento,
Recolhidas e silenciosas
Nos jardins
Coloridos de primavera,
Agradeço.

Pelos casulos abertos
Cascas esquecidas
Prenúncio de belezas,
Como amêndoas,
Como nozes,
Seus sabores,
Suas delicias.

Pelos papéis amassados,
Guardando rabiscos
De poemas noturnos e belos.
Do  lixo,
Desprezados projetos,
Desenhos de nova vida,
Rasgados,
Jamais lembrados

Pelas costuras
Em alinhavos,
Pelos ensaios desafinados.
As contusões.
Em saltos,
Em quase Voos
Contundentes ensaios.
Pelo feio,
Pelo malfeito e imperfeito
Por toda tentativa,
Agradeço


Pelo testemunho diário
De dores
A caixa de lenços que se entrega
e vazia, se finda
Pelas lágrimas que ajudo a verter
Enxugando-as.
Sou grata,
Pois benditas são as veias
Condutoras
Deste caudaloso fluir
Como é o sangue,
De vida

São águas em  dores vertidas
Até escondidas
Silenciosas
Ou em catarse que limpa,
Tornando límpidos
O negro
Pesadas nuvens
A sombra
O avesso


Pelas lutas,
Pelos lutos,
Meus e daqueles
A quem assisto.
Lutos e lutas
Que antecedem
anunciam
e preparam
Toda beleza.
À vida,
Agradeço.


Susana Meirelles





terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Colcha de Retalhos

 Vivendo retalhinhos de tempo a que chamamos dias, aqui chegamos. O tempo,tão imprevisível, às vezes dorme preguiçoso nos cantos de nossas repetições. Outras vezes, desperta apressado, para a renovação.
 Há tempos que queremos, com muita pressa, darmo-nos tempo. Urgentemente, queremos refazer a vida. Contamos a todos nossos sonhos, como se eles não formassem dentro de nós, a trama do desejo, tecido com que fomos feitos. E com o novelo constituído de desejos, esperanças e temores nas mãos é que queremos a tudo refazer, amarrar, às vezes remendar. Aquilo que não realizamos emerge de dentro do baú da saudade, lá do fundo de nossos apelos. E quase esquecemos os pedacinhos miúdos das pequenas vontades, que nos trazem alegria e são as construtoras do que virá.        
Desejamos sempre, e, desejamos nas coisas o que elas representam, mas nem sempre percebemos que seguimos projetando felicidade no que está fora de nós. Acreditamos que estaremos bem se tivermos aquilo que elegemos que nos trará alegria, sem refletirmos sobre o que de fato desejamos, naquilo que tanto queremos. Afinal, queremos roupa nova ou nos renovarmos? Novas cortinas ou abrir as janelas do nosso limitado mundo? Perder cinco quilos ou o modelo que seguimos?
E , se o que falta nos move ao longo dos fios do tempo, desejo alcançado deixa de ser falta, e assim, prosseguimos a vida, criando novos desejos costurados nas nossas vontades.
No entanto, viver talvez seja tecer distraidamente uma colcha de retalhos: pegar pedacinhos de experiências de passado, recortarmos e, uma vez frente a frente com elas, decidirmos o que fazer. Podemos dar novo sentido, nova cor, novo significado. Podemos transformá-las e atualizá-las. Podemos sim. Podemos aceitar do jeito que são, buscando uma combinação, uma forma. Podemos também constatar, que aquele recorte já não nos serve e descartá-lo, colocando um novo tecido no lugar e depois envolvermos tudo isso nos firmes fios de maturidade e sabedoria.
E nessa costura  - feita a mão - cabe a nós o destino que daremos a cada experiência, percebendo a beleza que cada uma possui; o encadeamento a que faz parte; o encantamento de todas as cores e a combinação das formas, mesmo aquelas que, separadas, pareciam desconexas.
Pode ser no Ano Novo ou no aniversário. Ou pode ser simplesmente no dia em que, ao terminarmos um ciclo, despertamos para a necessidade da mudança.Todo inicio de tempo pode acontecer em qualquer ponto da vida, a partir de qualquer pequeno retalho, desde que saibamos costurar: lembrar dos restinhos de passado, usar firmes fios do presente e lembrar dos espaços vazios do que ainda virá e  que podem ser preenchidos com novos talentos, novas habilidade e atitudes renovadas que precisamos apenas descobrir. Pois o futuro é um pedacinho de tempo adormecido, dentro de nós.
E, como as costureiras, podemos parar de tempos em tempos, para avaliar  a beleza do que já foi feito; mostrar a quem deseje conhecer; olhar com cuidado o que pode ser refeito,  aproveitando tudo o que temos e somos, com amor e sabedoria.
É preciso serenidade para tecer a vida, no silencio das nossas vivências, na luminosidade do que somos. E nos momentos de cansaço é que perceberemos o quanto nos serve essa bela e colorida colcha de retalhos.
Retalhos das nossas verdadeiras conquistas onde placidamente nos deitamos ou  nos abrigamos no seu calor,  acolhidos em nossa dor ou na nossa alegria.

Feliz Ano Novo!


Susana Meirelles




quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Decoração de Natal




     Todos os anos, são as lojas que primeiro anunciam a sua chegada. Todos os anos, vitrines luminosas piscam–piscam as suas cores, e a luminosidade dos shopping centers anunciam, na decoração do Natal, os seus apelos.
      O Natal vem chegando e nos surpreendendo pelo avanço do tempo, pois, assim, antecipado nas vitrines, sentimos que o trenó de Papai Noel a cada ano se torna mais veloz, e os seus sinos anunciam a passagem da própria vida, nos braços do tempo.
      O tempo é mágico e nos surpreende: mesmo sabendo que ele é sempre o mesmo, insistimos em repetir que, como um vento, o ano passa e sua velocidade, sentida quase como um lamento, nos convida a pensar, a rever, a revisar.
     Mas o tempo nunca altera a sua velocidade. O que muda é a nossa contagem. Quando bem vivido, é lento; dentro dele cabe tudo aquilo que nos transformou, nos emocionou. No entanto, preso no acaso de nossas monótonas repetições, parece não ter saído do lugar. Quando nele confiamos e o amamos, ele nos traz decisões e as soluções tão almejadas. Contudo, quando o tememos, parece não nos trazer presentes, mas a dor da sua perda e de todas as ausências.
      Tempo é sempre o mesmo e permanece invariável, maleável à nossa contagem, como a massa de modelar da nossa vida ou a matéria prima para os nossos sonhos. Tempo é Um. E como o Um iniciamos a contagem. No entanto, há muito tempo, entre os gregos, o tempo era Dois: duas palavras para expressá-lo, duas formas de compreendê-lo, duas maneiras de contá-lo e dois deuses para representá-lo - Khronos e Kairós.
      Khronos surgiu no princípio dos tempos e foi formado por si mesmo. Unindo-se a Ananka ou Inevitabilidade, gerou a Terra, o Mar e o Céu. Permanece sem corpo, como um deus, conduzindo a rotação dos céus e o eterno caminhar do tempo. Como força, é capaz de devorar os próprios filhos, tornando-se um deus temido por todos.
       Kayrós é um pequeno deus, que se parece com um elfo. É representado por um belo jovem seminu, com asas nos ombros e nos tornozelos. Kayrós sempre corre segurando a sua lança. Sua cabeça contém uma única mecha, a marca da sorte de uma oportunidade:
      Os gregos, como fazemos nós, contavam com Kairós para derrotar o tirano Kronos - o tempo da tão temida morte, do fim de todas as coisas.
Khronos é o tempo cronológico, ou sequencial; é o tempo que se mede, que se perde, que se ganha. É o tempo que passa. Kairós é o tempo indeterminado, o tempo no qual algo especial acontece, o momento oportuno. É o tempo em potencial, tempo eterno, tempo de Deus. Kairós tem a duração de um movimento, uma criação. Khronos é o monótono,repetititivo e veloz tempo dos homens
      O Tempo comanda os movimentos do Universo, marcando seu ritmo. Em sua forma Khronos, aprendemos a contar, a retroceder, a avançar. É em Khronos que conhecemos o passado, o presente e o futuro. Em sua forma Kairós, porém, o tempo possui asas nos pés, para que nos lembremos da eterna leveza do agora. Kairós é tempo do momento afortunado, tempo que tudo transcende, manifestando-se no eterno presente, instante após instante.
    Os shoppings centers, as vitrines, os calendários e quase todos nós vivemos a maior parte do tempo em Khronos, contando o tempo que falta para a morte, para o fim das dificuldades que vivemos ou para a chegada das situações que desejamos. Esquecemos de Kairós, que passa levemente por nossos rostos com a leveza do vento, mostrando-nos que o agora é o único momento oportuno e é onde está a verdadeira vida.
      E quando a decoração de Natal nos surpreende pela veloz passagem do tempo é como se nos deixasse uma mensagem: “Apresse o seu trenó, pois agora seu tempo é pouco para tudo aquilo que você esperou, nesse tempo, viver”.E isso acontece porque Khronos adora criar expectativas, por viver com medo da finitude. Khronos é muito triste e, por isso, conta e reconta. Kairós sonha e é feliz. Enquanto Khronos conta, Kairós sonha
     Kairós, de um lugar dentro de nós, convoca, convida-nos, apela : “avance, confie , entregue-se a essas nuvens e deixe-me conduzir seu trenó”.
Por isso, se olharmos mais uma vez a decoração de natal, podemos escutar um outro tempo que nos fala. Um tempo que está além da simples idéia de finitude e nos avisa que é este - é este, e apenas este- o tempo único, o tempo oportuno, o Agora onde está a vida verdadeira.
     Suspeito que, quando conhecermos verdadeiramente o amor, Kairós derrotará Khronos. Pois, já sentimos: um dia de amor, um instante de um acontecimento extraordinário ou um momento de extrema felicidade é o que faz o tempo parar, É quando, humildemente, Khronos se afasta e o tempo se desgoverna, pára, avança , retrocede. Creio que um único dia de amor, ou um instante de plenitude equivale a mil dias na monótona contagem de Khronos numa vida superficial e incompleta
Olhemos, então, mais uma vez a decoração do Natal, e vamos escolher. Podemos a tudo ver com os olhos de Kairós ou de Khronos. E então, ali, encontraremos: o verde de nossos campos cuidadosamente cultivados ou da nossa imaturidade. Os frutos belos, brilhantes e coloridos ou esmaecidos e sem cor das ações que agora colhemos. As luzes que piscam revelando nossa instabilidade ou nossa mais profunda alegria. O vermelho do nosso amor ou das paixões que nos consomem. O impávido pinheiro que se revelou a partir de uma semente ou a árvore desgastada de nossas falsas conquistas.
      Olhe bem: ali, logo ali, estarão os anjos em pequenas estatuetas vazias ou aqueles luminosos que foram libertos de dentro de nosso peito na forma de Generosidade, Compaixão, Solidariedade, Tolerância, Respeito às diferenças. O Noel de nossos sonhos ou o velhinho triste e cansado de nossas expectativas frustradas. As renas que nos conduzem e a elas nos entregamos ou em quem não confiamos a direção.
     Ali estão o presépio da nossa família, os laços vermelhos e dourados que ao longo do ano fizemos ou tudo aquilo a que nos amarramos. O trenó do nosso tempo ou de nossa saudade.
     Escute outra vez: ali tocam os sinos que nos convidam a sentir o nascimento de uma criança viva e linda dentro de nós. Nascimento que a todo ano se repete a nos lembrar a mais bela mensagem de amor que já se ouviu entre no Céu , no Mar, ou na Terra. Uma mensagem que marcou uma nova contagem, que inaugurou um novo tempo para a humanidade e que , por um momento, acredito, até fez Khronos e Kairós darem-se as mãos para recolher uma estrela que marcasse esse momento extraordinário, e servisse de guia e de inicio da contagem de nossa era. E para que pudéssemos compreender que é possível viver o tempo do extraordinário de Kairós, submetidos à contagem de Khronos,que rege nossas vidas.
     Acredito que se olharmos outra vez, até na decoração do Natal haveremos de encontrar a nossa estrela que poderá trazer o muito do encantado que existe dentro de nós. E ela terá a beleza da verdade quando se tornar, dentro de nós, muito mais do que simples decoração.
    Então que venha, que venha com o Natal, que venha um novo tempo, e que, mais do que do Natal uma decoração, que seja , que seja, um Natal ... de coração...



Feliz Natal!

Susana Meirelles