domingo, 9 de setembro de 2012

Poemas de Amor Bem Sonhado




Imagem : Lauri Blank

Vidente Amor




Eu bem conheço a força que tens
pois, em mim, já grita.
Mas disfarço e recorro ao vinho 
esperando que em ti a verdade se revele.
Tua presença basta,
para que se calem em mim
todas as belas palavras 
que juro, sei dizer.
Meio tola, apenas repito, sem disfarces,
o mesmo sim a todos os teus convites.

Meu amor é tão profundo e tão claro
mas  de tal poesia, pouco conheces.
Mal conheces teu futuro que, todavia, faço-me vidente:
"Viverás  comigo
E caminharemos velhinhos, mãos dadas."
Nesta noite, ao teu lado, me calo.
E já nem sei se da verdade ou do vinho me embriago.

Comemoro em silêncio a tua chegada
em doses imponderáveis 
 de ilusão 
e daquelas mentiras tão desejadas,
que transformam em 
 infinito e eterno, 
um passageiro,
 silencioso, 
mas tão evidente
amor.



Susana Meirelles



Imagem: Lauri Blank 


Uma Casa nas Nuvens


Queria descobrir  a paisagem.
mais recôndita da sua alma
e com que forma,
a sua essência lhe modelou:
Com que barro? Com que cor?

Queria ter escutado
O som do seu sorriso,
sua voz declamando
a poesia que sai do bolso,
e tatuada na pele, revela
uma promessa, história,
longa memória,
pacto que você fez
não sem dor.

Queria ter pintado meus lábios,
mostrar que minhas lágrimas furtam cores
e  que há verde no fundo do meu olhar.
Mostrar o azul do mar, branco do sorriso
todas as minhas cores
(sou como arco íris),
eu ia lhe ensinar a misturar.

Queria  beijar as pontas luminosas
dos seus dedos,
por onde salpicam estrelas,
e caem, 
cumprindo desejos
e iluminando seu papel.

Queria  ouvir sua verdade,
como quem escuta música.
E as palavras que escrevia
saber se , de perto ,
tão lindas!
"São mesmo suas?"

Queria construir um lugar
para com você estar.
Uma casa sob arvore,
ou nas nuvens,
queria só  puxar a cadeira,
e lhe oferecer
 uma xícara de chá.

Queria sair da rede,
fazer entrelaces de nossas mãos,
 e em rede tecida pelo olhar,
ir, pouco a pouco,
vendo, lhe vendo,
nos vendo,
aos poucos,
bem devagar.

Queria sentir  a graça do seu riso,
que certamente  iria gostar do meu.
Quis brincar com você
rindo das nossas  diferenças ,
e do meu sotaque,  
tão diferente do seu.

Queria sim, embriagar-me.
Queria mesmo era ver transbordar a taça,
Decidida a pagar o preço,
não ia fugir 
não ia me esconder.
(Eu queria mesmo, e  muito,
era tirar uma foto com você).

Queria  usar o vestido novo
sem sandálias, pisar na areia.
E na praia,
fazer uma surpresa:
eu ia pedir ao mar
que desse um beijo em você.

Queria lhe dar uma flor
minha essência, perfume,
meu calor.
Quis, em pétalas,
 meio trêmula,
oferecer,
tudo o que sou.

Queria lhe convidar para um passeio
pela cidade,
e andar com você na minha história.
Gravar bem minhas memórias,
eu juro
 que ia escrever um livro
e ler,
só para você.

Eu só queria despedir-me satisfeita
por ter vivido.
Os riscos, com você, ter corrido
(E dos riscos não ter corrido).
Queria mesmo era ter tido a chance,
de, 
se quisesse,
desistir de você.



Susana Meirelles







Arte: Lauri Blank


Andorinha do mar



Aquela imensa alegria
alada, 
foi adiada,
fazendo pouso
em outras paragens.
Sumiu,
perdi de vista
no imenso horizonte
de nossas 
conquistas.

Esperei para ver seu riso
aberto, ouvir seus versos,
devagarzinho,
e aquelas estrelas
sem disfarces,
nas faces

A roupa  nova
aguarda no guarda roupa,
junto com essa alma minha
inteira e nua,
vagando incerta,
na certeza de que era sua.

Quase vejo por aqui
suas mãos desenhando
uma vida nova,
Que tanto quis,
Tecida com paciência
fio a fio.
Eu dentro de você
você, amado,
 dentro de mim.

Sem as  asas dessa alegria
triste sou, adio o amor
E digo um longo adeus
ao  dia que se fez
para ser seu
E para ser meu.

Um  mundo inacabado
foi construído, às pressas,
no seu lugar.
O dia a dia só adia
minha ida,
ou sua vinda
e o começo
de nossas vidas.

Sofro de rotinas,
 de sinais vermelhos
e travessias.
Sofro com gastas retinas
ardências nos olhos,
cansados,
do mesmo engano

Numéricas
são a contagem das horas,
com as contas por pagar
recibos a recolher.
Numa contabilidade curta e gasta.
subtraindo  você,
traindo meu desejo
de somar-me a você.

Sozinha, vou até o mar
Sinto o vento, muito azul
abrindo meus olhos.
Crio asas
 ( por pura ternura)
torno-me andorinha do mar.
E, no mesmo instante
de aqui, 
aí ,
no ninho do seu peito,
 estou.
No seu coração,
eu sei.
Tenho o meu lugar.

                                                            
 Susana Meirelles






Imagem: Lauri Blank


                                                                       SOBRAS



Não preciso de ti
para que me completes.
Nada do que tens,
a mim, falta.
Não busco a ti
por qualquer tesouro
ou dor que tenhas oculta.

Não. Não  busco em ti .
o manancial de todo amor
infinito que seja,
ou breve como o tempo.
Nada busco em ti
que sirva
por uma ilusão qualquer,
para compor as paisagens
da minha falta

Não: é bem maior,
posto que bem conheço
expansões
tão belas
quanto aquelas
que se dão
com as estrelas.
Tenho um universo
a descobrir
tão misterioso,
quanto o teu.
Tal como você, 
sou alvo de olhares.
Amorosos,
devoradores,
ternos olhares.

Sou dona de mim,
mas este corpo,
estreito,
não consegue guardar
toda a alma.
Por isso, vivo em busca ,
de um corpo para abrigar-me,
além de mim.
Além do que já possuo,
enquanto expando-me,
lentamente.

Vou além do que já sei.
Vou além do que não acredito,
mas conheço.
Vou além do que ainda não sei.
mas aceito de mim.
expando-me sim,
e nunca, em mim,
caibo inteira.

Por isso, engana-te,
pois não me falta alma.
Não me falta nada.
Não, nada
(nem mesmo a falta)
me falta.
Sou muito maior do que mim

Preciso, de fato,
é emprestar –me  a t.i
Pois nada me vale
toda expansão,
toda beleza,
toda alma:
Sem você,
Sobro-me





Susana Meirelles





Arte: Lauri Blank


TAÇA DE ALEGRIA



Minha alma a ti se dirige,
convida
E quando menos  espero,
canta,brinca
e chora em mim,
sem que eu saiba.
Revela-se,
e eu não a domino.
Deixo-a  ir , cavalgando livre
(Diferente de mim, ela é selvagem).
Torno-me taça que transborda em paixão,
ainda quando disfarço e minto.
Sim, minto,
para compensar tudo aquilo
que, à revelia,
a ti revelo.
"Vim ver-te, aqui estou"
É só o que  falo.
E se nem sei se escutas,
permito que minha alma
 fale em mim:
"Bebe da minha taça,
Por tua presença, sou pura alegria.
Por ti. minhas mãos tremem
e o coração rubro, acelera."
Diante de ti, transbordo.
 Minha alma agora está em tudo:
Na rua, no bar, na festa, na foto.
Na música e no silêncio,
que em mim se faz.
Minha alma está aqui,
sob este  vestido florido,
cor de vinho,
por ti colorido.
Sou tão tua,
quanto não sabes
E essa inocência tão bela
é só o que de ti  transborda
quando  olho teus escuros olhos
e desbordo.
É a  inocência
do quanto és
que te faz beber o vinho,
e de mim, despedir-se.
Enquanto eu, só,
inteira  sou,
e sorvo-te ,
numa taça de alegria.
que ignoras.




Susana Meirelles

















Poemas de Amor Bem Vivido







Imagem - Lauri Blank



A REDE


Uma noite, agosto,
em rede tecida pela lua,
reencontrei você.
Meu olhar  fez-se lunar
que lhe redescobria ,
enquanto seus beijos delicados
percorriam meu corpo,
explorando o campo,
seu  mapa,
que em mim se desenhava.

Há muito lhe conhecia,
e em mim já sonhava
um tempo esquecido,
em nós , adormecido.

O que acontece
entre estrelas e mares,
quando o universo inteiro responde
a um pedido dirigido ao céu,
vindo de um passado?
O que acontece com o céu,
quando uma pergunta
encontra ,num ato, a resposta
e a resposta se faz poema?

Pois enquanto você estendia
sua rede, tão suavemente,
capturando-me como borboleta,
a vida resgatava um momento
longínquo de um passado
 e, entrelaçando-nos, o refazia.

E enquanto eu passeava
meus dedos em sua pele macia,
amenizando  e intensificando,
a sede de lhe ver real,
O tempo, satisfeito, sorria.
(Éramos nós  nos reencontrando,
e a história recompondo,
o que nos devia).

Naquela noite.
em rede,
fui sua.
sua suave
ave sob a lua.

Não  longe, o mar bramia,
agitava-se,
enquanto a rede
ia  entrelaçando
em nossos pés,
o presente vivido,
um futuro sonhado
e as estrelas que ali caiam,
mensageiras do passado,
vinham
     e viam.  


Susana Meirelles


                                                                               






Imagem - Lauri Blank


FARÓIS


Meus olhos ali viviam.
Viam teus olhos amarelos
como dois faróis de luz clara, sinalizando tudo.
Lágrimas transcendiam e os inundavam.
Não, não era  pela dor da perda,
mas pela emoção do encontro.
Estar no mundo sem teus faróis,
é ser órfão de pai e mãe
em primeiro dia de aula:
ou jogo pedra na vidraça ou me conformo.
Conformo-me à beleza do mundo,
tal como a vejo
sem teus olhos.

São meus faróis de luz amarela,
e eu à deriva, barco.
Embarco nesse olhar para ir além dele,
perceber que por trás dele há outra luz
tal como a minha.
E ainda que precise dos seus olhos por empréstimo,
é sempre para dentro de mim
que os sinais se confirmam.

Vai! Sinaliza, ó farol,
mar adentro,
mar avante,
adiante.
Alcança algo imenso desse mar.
Misterioso, caudaloso,
silencioso mar,
onde me encontro.
Amando-te em ti
e afastando-te de mim.
Amando-me em ti
e afastando-me de mim.
Amando-te em mim
e Afastando-me de ti


Susana Meirelles



                                                          Imagem - Lauri Blank


ENTRELACES

Colecionei toda poesia,
guardando-a para você,

entrelaçando palavras
como com as flores

se faz.
Poesia em fios,
São entrelaces,
Como dos pães , as cestas
Como da cama, as mantas
Como da cabeceira, o relógio
Registrando o tempo nosso.
Nosso tempo em  varandas

e em salas de estar,
meus olhos, salas de espera
e todas aquelas janelas,
 onde lhe adivinho chegar.
Sua presença basta
para que se inscreva  

poesia, em mim,
Pois, se você  chega ,
antes, me chegam seus passos,
e a sua respiração apressada
é entrelaçada à minha.
Conheço, em mim, seus rastros,
quando sua falta se desfaz,
e  meu coração aponta
caminhos e tanto me diz.
Tecelagem
de fios.
de mãos
e poéticos tremores
(são quase temores),
que se entrelaçam,
nesse amor imenso,
que é meu
que é seu

que nos enlaça,
no poema de nosso laço.


                                                                                                             Susana Meirelles


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Minha Cidade

          A  Cidade é grande, mas não me acolhe; braços imperfeitos que não abraçam. Em meio à multidão sou presença ignorada. A minha cidade não me ama, apenas me contabiliza como mais um. Solta no mundo, componho em parte, a paisagem. Participo como figurante de uma cena que se desenvolve sem que eu conheça.
Dentro de mim, no entanto, a cidade é imensa. Sou cena principal do meu enredo, que inclui minha história, com suas repetições, hábitos e desejos, sonho e fé. Dores nunca pronunciadas. Silêncios e vales. Gritos e risos, muitos risos.
A minha cidade é formada pelos monumentos que erigi ao longo da história; pelas calçadas em barro batido que improvisei, pelo mato fechado pelo qual eu nunca ousei passar. Os alicerces que construí sustentam sonhos e, por suas frestas, observo as nuvens. Nuvens que na infância foram a matéria prima de meus desenhos imaginários, onde, sem saber, me revelava a céu aberto.
Há lagos e rios. Mar caudaloso. Paisagem verde claro, verde escuro e azul. É da cor do tijolo em suas inúmeras casinhas em construção, pelo inacabado de tudo que comecei e não concluí.  Mas há prédios modernos engrandecidos do já realizado, cujo orgulho com que os admiro não se compara à serenidade da missão cumprida, que encontro alicerçada em mim.
Missão comprida essa de viver. Minha cidade interior.
A minha cidade funciona em departamentos indispensáveis. Pensamentos circulam em trânsito contínuo e as emoções, muitas vezes, desorganizam o que parecia correto. Sentimentos condutores são  sinais de trânsito e marcas na pista. Sinalizadores da razão advertem sobre possíveis perigos. É quando sofro mais. O medo, maior do que a cautela necessária , torna assustadores os meus fantasmas.
Há igrejas, onde, reclusa, o culto ao sagrado e a fé se estabelecem .Há vales e cachoeiras com a força intensa das águas que, bem canalizadas, iluminam tudo. Ou explodem em força descontínua, desgovernada, cujo estrago posso perceber por muito tempo. Há mares, calmos e deliciosos. Águas tranquilas que mais se assemelham a lagos azuis. São reflexos do meu pensar amoroso sobre as coisas do  mundo.
Há catástrofes, sim, embora raras. Com elas me encontro nas noites de insônia quando preciso sobreviver a enchentes e terremotos. Quase tudo desaba, mas quando despontam os primeiros raios da manhã, vou tudo reconstruindo com a matéria prima de meus sonhos, projetos de futuro e certa dose de ilusão. Prossigo a vida em meio a atividades rotineiras, que são meus laços protetores e meu abrigo da dor.
A minha cidade possui bosques e cachoeiras refrescantes. São o reconforto de todo momento. É a presença poética dentro de mim como uma delicadeza. Suavidade. São os encantos do percurso: a gentileza nos gestos, a compaixão, a solidariedade, a partilha, a generosidade, a amizade, a compreensão.
Há ainda, plumas de algodão que flutuam em meio ao trânsito, quando o amor torna poéticas as cenas do cotidiano. É quando desaparece a dureza do chão, do asfalto, do caminho. É a felicidade.
Decerto que na minha cidade, há passagens secretas e paisagens belas.  Asas e espaços; almas e abismos; escadas e labirintos. Pessoas invadem deliciosamente a minha cidade e eu aceito, baixando a guarda protetora, e as muralhas que me protegem da dor. Invadem-me como borboletas miúdas amarelas e azuis. Invadem com suavidade e passam a ocupar quase tudo.
É através do amor que a minha cidade se expande e comemora. Por isso há feriados e inesquecíveis dias santificados, dentro de mim.


Susana Meirelles
.          

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Jardim da Infância

Todos nós viemos de um jardim. Mais do que as flores que cultivamos, lá fomos, pouco a pouco, compreendendo as consequências da nossa ação no mundo. Lá aconteceu a semeadura e a colheita, na leveza do algodão onde brotam até hoje os nossos pés de feijão. Pequenas formigas trabalhadeiras e cigarras preguiçosas. Casulos e lagartas pacientes.
No jardim ensaiávamos, com nossos coloridos desenhos, a vida futura e já nos revelávamos: casas com janelas abertas como um sorriso, limitadas por minuciosas cercas com flores ou com espinhos, protegidas por frondosas árvores aos pares, como pais. Árvore que dava todos os frutos, só para ficar mais colorida. Ou casinhas abandonadas, escuras e vazias na floresta, à espera de um encanto, uma fada ou um duende de jardim.
Se em nossas brincadeiras, corríamos ou nos escondíamos, se escolhíamos ser mocinhos ou bandidos, heróis ou transgressores, aventureiros ou tímidos, estávamos, sem saber, tirando fotografias para o baile de fantasias dos papéis que viveríamos na vida.
Esse é o jardim da infância.
Lembro de Rilke, aconselhando ao jovem poeta: “caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga a si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer á tona as sensações submersas deste passado vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros”(RILKE,2009 )
A infância é relíquia constituída de lembranças guardadas. Mas, como uma parábola, seu registro são histórias sempre revistas, recontadas e modificadas, conforme o tempo e as nossas vivências. A infância é parte de nós e parece massa de modelar.
Não podemos jamais ter a certeza dos acontecimentos, porque nossa memória usa lentes coloridas, com cores que variam conforme o tempo; por isso, os eventos importam menos do que as interpretações que deles fizemos e que deles ainda faremos, no curso da vida.
Nossas lembranças, criadas com os personagens, enredo, trama, drama, final feliz ou triste são as histórias às quais, ao longo da vida nos reportamos, para dizer quem somos. De nossa infância importa muito mais o que se conta, revelando o nosso presente, do que aquilo que de fato vivemos. Somos personagens de nossos dramas, mas também somos, de nossa história, os contadores.
Acontece que costumamos valorizar, nas nossas lembranças e histórias, as feridas da infância, com suas chagas nunca cicatrizadas. Carregamos a criança ferida que pede cura e nas suas queixas, revive o enredo, numa repetição que não escolhe fazer, mas que pode vir a ser uma maneira de inventar outro fim. Repetir pode ser uma forma de superação, desejo de uma nova criação.
Porém, a repetição das experiências com outros personagens e novos cenários, é um monótono sofrimento, que indica uma mudança que ainda não foi feita na história em que somos sempre protagonistas.
É preciso acolher essa criança ferida, escutá-la e lembrar-lhe, caso esteja esquecida, que as quedas também faziam parte das brincadeiras da vida.
E se somos contadores e personagens, é importante recordar a criança feliz e viva dentro de nós, que se deixava levar pelas descobertas, naquele jardim.É essa a criança que há muito tempo cultiva, em silêncio, coloridas flores da Alegria, da Coragem. Flores da Liberdade, Autenticidade, Criatividade, Confiança  e Afeto. Foi ela que nos ensinou sobre o Amor, o Desejo e a Persistência. Foi ela quem acreditou no futuro como um lugar para assistir ao reflexo do que no jardim da infância cultivou.
Nesse jardim podemos descobrir não apenas o lugar de nossas quedas, mas os atalhos para o que hoje somos e amamos, porque foi lá que ficou escondido o mapa de nosso tesouro.
Que possamos viver de forma tal, que celebremos a criança feliz que fomos e que possamos imprimir, com seus lápis de cor, tanta vida, que ela possa nos ajudar a contar e a redesenhar a nossa história.


Susana Meirelles






REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA


RILKE, Rainier- Cartas a um jovem poeta; tradução de Pedro Sussekind- Porto Alegre;L&PM, 2009

domingo, 1 de julho de 2012

Relógio de Areia


És um moço tão bonito
quanto a cara de meu filho,
tempo, tempo, tempo tempo.
Vou lhe fazer um pedido.
(Caetano Veloso)


O tempo, esse mistério sem medidas, sempre foi um desafio para o homem que precisava - ao longo do tempo - controlá-lo, enquanto nele vivia.
A contagem do tempo pressupõe a consciência da finitude. Marca a que todos estamos submetidos, cujo confronto ou aceitação fuga ou negação, coloca-nos em dores e alegrias ao longo do tempo. E inventar uma medida, talvez sempre tenha sido, uma forma de controle desse intervalo de tempo, a que chamamos vida.
Dia e noite. Estações do ano, frio e neve. Sol, frutos e flores. A posição das estrelas. Quantas horas já inventamos?
Criamos o relógio das águas, das estrelas, o relógio do sol e relógio de areia. Foram muitas as medidas do tempo. Mas será que hoje, dono de nossos relógios modernos, já sabemos medi-lo? Será que, um dia, seremos  do tempo, seus senhores?
Qual a nossa medida de tempo?
Às vezes medimos o tempo pelos grandes acontecimentos e a vida parece ser uma corrida para alcançar um ou dois casamentos, formatura e aposentadoria. Três tempos ou um pouco mais. E os intervalos? Deixamos que se vão, como areia entre nossos dedos, pois o relógio das estrelas não nos permite viver o doce cotidiano, as delicias do presente que tornam o tempo dilatado, porque não marcado apenas por acontecimentos esperados, que logo depois de alcançados, nos trazem o triste sabor da finitude e por isso, reiniciamos indefinidamente a contagem.
Quando medimos o tempo pelos nossos relacionamentos, não consideramos o tempo de solidão, como se este fosse apenas intervalo. Contamos as pessoas que passaram em nossas vidas sem notarmos que elas refletiam as nossas estações; não contamos os momentos em que estivemos a sós, quando o tempo esteve tão próximo e ao nosso lado, esperando para ser aceito e utilizado em nosso crescimento.
Medido pelas nossas conquistas, o tempo nos dá a medida da nossa capacidade, mas não da felicidade, que parece escorrer no relógio das águas.
Sonhamos em parar o tempo como se assim aprendêssemos a nele viver. Dizemos que a vida está passando rápido demais, sem notarmos que somos nós - e não a areia do relógio que criamos- o  que desliza para o futuro, insistentemente.
Quando acreditamos que suas águas nos conduzem tão lentamente, não será por termos nos apegado à rocha do passado, esquecendo que, como água, temos a capacidade de nos entregarmos à vida, fluindo e deslizando ao sabor das nossas experiências?
Não será o presente a única e verdadeira medida do tempo?
Quando enchemos dos grãos da areia das nossas expectativas a nossa medida de tempo, tudo se vai com a rapidez do não vivido, uma vez que, nada acontece se só valorizarmos o inalcançável, o que está lá, bem distante, próximo às estrelas.
Ó tempo, vou lhe fazer um pedido: permita-nos gerá-lo amorosamente, como um filho para o mundo e não se deixe prender por nós, mas também não nos escape. Ó tempo, não represente apenas a nossa sobrevivência , mas a nossa passagem e não se permita mais ser contado por nós, pois ainda não sabemos como fazê-lo, mas nos contabilize- ó Tempo -  como  participantes da bela aventura da vida.
 Pois vida é esse relógio de areia marcado por um inicio e por um fim, cujo intervalo, poderá ser medido de acordo com nossos frutos e nossa colheita, nosso sol e nossa chuva; nossas passagens e nossas estações, as flores que cultivamos e as estrelas que nos encantam, sem temermos o seu fim.


Susana Meirelles