domingo, 15 de abril de 2012

Passinhos de passarinho

Era  uma tarde bonita e nublada dessas que nos levam a refletir que, se há prazer em viver,  podemos  prescindir do sol para estarmos alegres, ou ao menos para estarmos juntos, no feriado, sob a chuva.
E saímos a caminhar na areia molhada, o mar, de cinzento a azul, formava pequenas poças entre as pedras, onde crianças chegavam aos poucos. Senhoras caminhavam lentamente e sorridentes, a nos mostrar que o tempo pode atingir a agilidade dos passos, mas não a vontade de brincar.
Sentindo a areia macia sob os pés, contemplávamos um espetáculo no céu: raios de sol mais ousados teimavam em vencer o peso das nuvens espessas, embelezando tudo.
-"Meu coração é nuvem e raios de sol”, refletia em silencio, sem ousar estragar com palavras a beleza do momento. Ainda estava entregue a reflexões que me pareciam intermináveis: a vida e suas razões, a inevitabilidade da morte e também a de continuar vivendo.
Parece que as tempestades não têm fim quando somos nós a vivê-las, até que um dia, elas passam e só assim podemos crer que acabam.  Mas como recordar mil vezes os dias ensolarados? E como  podemos esquecer com tanta facilidade o que ainda ontem vivemos?
Foi quando observei um pássaro que caminhava ao nosso lado, com seus passinhos delicados e velozes, como a anunciar o sol, como a anunciar a continuidade da vida. A areia ainda estava molhada e ele corria e voava, corria e voava mais um bocadinho, para apressar um pouquinho e acompanhar nossos passos, bem maiores porém, bem mais pesados.
Tudo parece certo e organizado quando a natureza vai anunciando o seu ciclo. Os  pássaros caminham na areia sob a chuva e isso é sinal: um sinal inconfundível da chegada de sol. Parece que eles são movidos por um sentido que nos falta: eles conhecem os ciclos os ritmos. Conhecem o coração da vida.
Será que viemos ao mundo desprovidos desse sentido? Ou complicamos porque temos medo e não acreditamos? Será que sabemos ouvir a nossa intuição que nos diz “não vá por aí” ou “tenha fé e esperança”, “aguarde mais um pouco” ou “está na hora de começar”, “vá em frente, sem medo”.  “Prepare-se para os dias de inverno, mas viva com intensidade o seu verão”.”viva o presente.” “declare logo o seu amor!”, “Não pense no que poderá perder mas no que poderá aprender.”
Mas que graça teria se nossos fins fossem todos previsíveis?
Já sabemos, sim: as tempestades passam, o sol reaparece, as dores têm seu tempo, Seguindo –se às perdas temos os ganhos: como a lua com seus ciclos, como os movimentos das marés, como o galo que anuncia um novo dia, como a estrela da manhã, como choro de criança que nasce para o mundo novo.
E o passarinho me disse, do seu jeito mansinho, que nossas lágrimas bem parecem restinho de chuva prateada nos nossos rostos . Porém, tudo passa, e não adianta apressar, porque muitas vezes temos passinhos de passarinho e não temos asas como eles, mas, ainda assim,  podemos contar com nosso  próprio percurso, com a confiança de que podemos transformar as situações se não nos furtarmos a vivê-las passo a passo,  com a fé no futuro e com as mãos de um amor delicado,  a nos acompanhar.


Praia de Jauá.

13 comentários:

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    1. Tem uma frase no seu texto que me chamou bastante a atenção "parece que a tempestade não tem fim...".
      Porque enquanto somos o agente receptor da dor, o tempo meio que para, e o sentido do que acontece é bem maior e não queremos ouvir quem está de fora. E quendo somos espectador temos a sensação é que o efeito foi excessivamente ampliado. O que percebo é que para os animais a vida é bem mais simples, nós e que a complicamos por nossa natural essência em estar buscando resposta para tudo!!!!

      Aidil Andrade

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  2. Adorei, Su!
    Saudades dos nossos papos.
    Jac

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    1. Oi Jac!Obrigada. Fico muito feliz que vc tenha gostado. Saudades de nossos papos também...

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  3. Ai Sú! As lágrimas me dizem que este texto calou em meu ser como uma verdade vivida. A palavra "ritmo" tem me feito refletir estes últimos dias, a vida é feita de ritmos. Não adianta querer dançar em um ritmo quando a melodia lhe propõe outro, a dança fica difícil e cansativa, a vida, feita de ritmo nos convoca a escutar o nosso ser evocando a melodia que nos conduzirá...passos de passarinho, sem asas para apressar a dança do caminho. Beijos. Rosana Rebouças

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  4. Que texto lindo! Me fez refletir muito! Bjs!

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    1. Esqueci de assinar acima Tatiane Resende.

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  5. Passarinho de passinhos, sem asas... Aliás, com asas mas não vôo para acima do chão. Leio o teu texto e lá vou tendo que me segurar pra não sair voando até me esburrachar, de novo. Minhas perninhas à mil/h... Vou até a última linha, do texto, e uma vontade de te encontrar pra falar besteira... Ê saudade... Beijos de Heitor Guerra.

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    1. que lindo seu comentario , Heitor! também quero lhe encontrar pra falar besteira e rir. bjo

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  6. Su, que coisa mais linda esse texto. Muito fôfo!! Passinhos de passarinhos. Adorei...bjos
    Fátima Carneiro

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  7. Parabéns, Su querida.
    Que continuemos com essa vontade louca de brincar e viver.
    Abreijos

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  8. Sussú,

    que lindo este texto e que lindas imagens podemos construir com a sua leitura.
    Adorei!
    Beijos!

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  9. Tão macia e tamanha intensidade das palavras que, como os "passinhos de passarinho", toquei devagarzinho cada pedaço, tomando em sorvos curtos, sentindo o gosto simples das coisas que "arrumam a gente" por dentro e por fora, sem nada tirar fora, apenas ajeitando com um carinho inesquecível.

    Especialmente esse pedacinho que diz: "Porém, tudo passa, e não adianta apressar, porque muitas vezes temos passinhos de passarinho e não temos asas como eles, mas, ainda assim, podemos contar com nosso próprio percurso, com a confiança de que podemos transformar as situações se não nos furtarmos a vivê-las passo a passo, com a fé no futuro e com as mãos de um amor delicado, a nos acompanhar."

    Lindo demais Suzana! Delícia de ler e tomar, imediatamente, como um abraço gostoso!

    Silvana

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