domingo, 9 de setembro de 2012

Poemas de Amor Bem Vivido







Imagem - Lauri Blank



A REDE


Uma noite, agosto,
em rede tecida pela lua,
reencontrei você.
Meu olhar  fez-se lunar
que lhe redescobria ,
enquanto seus beijos delicados
percorriam meu corpo,
explorando o campo,
seu  mapa,
que em mim se desenhava.

Há muito lhe conhecia,
e em mim já sonhava
um tempo esquecido,
em nós , adormecido.

O que acontece
entre estrelas e mares,
quando o universo inteiro responde
a um pedido dirigido ao céu,
vindo de um passado?
O que acontece com o céu,
quando uma pergunta
encontra ,num ato, a resposta
e a resposta se faz poema?

Pois enquanto você estendia
sua rede, tão suavemente,
capturando-me como borboleta,
a vida resgatava um momento
longínquo de um passado
 e, entrelaçando-nos, o refazia.

E enquanto eu passeava
meus dedos em sua pele macia,
amenizando  e intensificando,
a sede de lhe ver real,
O tempo, satisfeito, sorria.
(Éramos nós  nos reencontrando,
e a história recompondo,
o que nos devia).

Naquela noite.
em rede,
fui sua.
sua suave
ave sob a lua.

Não  longe, o mar bramia,
agitava-se,
enquanto a rede
ia  entrelaçando
em nossos pés,
o presente vivido,
um futuro sonhado
e as estrelas que ali caiam,
mensageiras do passado,
vinham
     e viam.  


Susana Meirelles


                                                                               






Imagem - Lauri Blank


FARÓIS


Meus olhos ali viviam.
Viam teus olhos amarelos
como dois faróis de luz clara, sinalizando tudo.
Lágrimas transcendiam e os inundavam.
Não, não era  pela dor da perda,
mas pela emoção do encontro.
Estar no mundo sem teus faróis,
é ser órfão de pai e mãe
em primeiro dia de aula:
ou jogo pedra na vidraça ou me conformo.
Conformo-me à beleza do mundo,
tal como a vejo
sem teus olhos.

São meus faróis de luz amarela,
e eu à deriva, barco.
Embarco nesse olhar para ir além dele,
perceber que por trás dele há outra luz
tal como a minha.
E ainda que precise dos seus olhos por empréstimo,
é sempre para dentro de mim
que os sinais se confirmam.

Vai! Sinaliza, ó farol,
mar adentro,
mar avante,
adiante.
Alcança algo imenso desse mar.
Misterioso, caudaloso,
silencioso mar,
onde me encontro.
Amando-te em ti
e afastando-te de mim.
Amando-me em ti
e afastando-me de mim.
Amando-te em mim
e Afastando-me de ti


Susana Meirelles



                                                          Imagem - Lauri Blank


ENTRELACES

Colecionei toda poesia,
guardando-a para você,

entrelaçando palavras
como com as flores

se faz.
Poesia em fios,
São entrelaces,
Como dos pães , as cestas
Como da cama, as mantas
Como da cabeceira, o relógio
Registrando o tempo nosso.
Nosso tempo em  varandas

e em salas de estar,
meus olhos, salas de espera
e todas aquelas janelas,
 onde lhe adivinho chegar.
Sua presença basta
para que se inscreva  

poesia, em mim,
Pois, se você  chega ,
antes, me chegam seus passos,
e a sua respiração apressada
é entrelaçada à minha.
Conheço, em mim, seus rastros,
quando sua falta se desfaz,
e  meu coração aponta
caminhos e tanto me diz.
Tecelagem
de fios.
de mãos
e poéticos tremores
(são quase temores),
que se entrelaçam,
nesse amor imenso,
que é meu
que é seu

que nos enlaça,
no poema de nosso laço.


                                                                                                             Susana Meirelles


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Minha Cidade

          A  Cidade é grande, mas não me acolhe; braços imperfeitos que não abraçam. Em meio à multidão sou presença ignorada. A minha cidade não me ama, apenas me contabiliza como mais um. Solta no mundo, componho em parte, a paisagem. Participo como figurante de uma cena que se desenvolve sem que eu conheça.
Dentro de mim, no entanto, a cidade é imensa. Sou cena principal do meu enredo, que inclui minha história, com suas repetições, hábitos e desejos, sonho e fé. Dores nunca pronunciadas. Silêncios e vales. Gritos e risos, muitos risos.
A minha cidade é formada pelos monumentos que erigi ao longo da história; pelas calçadas em barro batido que improvisei, pelo mato fechado pelo qual eu nunca ousei passar. Os alicerces que construí sustentam sonhos e, por suas frestas, observo as nuvens. Nuvens que na infância foram a matéria prima de meus desenhos imaginários, onde, sem saber, me revelava a céu aberto.
Há lagos e rios. Mar caudaloso. Paisagem verde claro, verde escuro e azul. É da cor do tijolo em suas inúmeras casinhas em construção, pelo inacabado de tudo que comecei e não concluí.  Mas há prédios modernos engrandecidos do já realizado, cujo orgulho com que os admiro não se compara à serenidade da missão cumprida, que encontro alicerçada em mim.
Missão comprida essa de viver. Minha cidade interior.
A minha cidade funciona em departamentos indispensáveis. Pensamentos circulam em trânsito contínuo e as emoções, muitas vezes, desorganizam o que parecia correto. Sentimentos condutores são  sinais de trânsito e marcas na pista. Sinalizadores da razão advertem sobre possíveis perigos. É quando sofro mais. O medo, maior do que a cautela necessária , torna assustadores os meus fantasmas.
Há igrejas, onde, reclusa, o culto ao sagrado e a fé se estabelecem .Há vales e cachoeiras com a força intensa das águas que, bem canalizadas, iluminam tudo. Ou explodem em força descontínua, desgovernada, cujo estrago posso perceber por muito tempo. Há mares, calmos e deliciosos. Águas tranquilas que mais se assemelham a lagos azuis. São reflexos do meu pensar amoroso sobre as coisas do  mundo.
Há catástrofes, sim, embora raras. Com elas me encontro nas noites de insônia quando preciso sobreviver a enchentes e terremotos. Quase tudo desaba, mas quando despontam os primeiros raios da manhã, vou tudo reconstruindo com a matéria prima de meus sonhos, projetos de futuro e certa dose de ilusão. Prossigo a vida em meio a atividades rotineiras, que são meus laços protetores e meu abrigo da dor.
A minha cidade possui bosques e cachoeiras refrescantes. São o reconforto de todo momento. É a presença poética dentro de mim como uma delicadeza. Suavidade. São os encantos do percurso: a gentileza nos gestos, a compaixão, a solidariedade, a partilha, a generosidade, a amizade, a compreensão.
Há ainda, plumas de algodão que flutuam em meio ao trânsito, quando o amor torna poéticas as cenas do cotidiano. É quando desaparece a dureza do chão, do asfalto, do caminho. É a felicidade.
Decerto que na minha cidade, há passagens secretas e paisagens belas.  Asas e espaços; almas e abismos; escadas e labirintos. Pessoas invadem deliciosamente a minha cidade e eu aceito, baixando a guarda protetora, e as muralhas que me protegem da dor. Invadem-me como borboletas miúdas amarelas e azuis. Invadem com suavidade e passam a ocupar quase tudo.
É através do amor que a minha cidade se expande e comemora. Por isso há feriados e inesquecíveis dias santificados, dentro de mim.


Susana Meirelles
.          

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Jardim da Infância

Todos nós viemos de um jardim. Mais do que as flores que cultivamos, lá fomos, pouco a pouco, compreendendo as consequências da nossa ação no mundo. Lá aconteceu a semeadura e a colheita, na leveza do algodão onde brotam até hoje os nossos pés de feijão. Pequenas formigas trabalhadeiras e cigarras preguiçosas. Casulos e lagartas pacientes.
No jardim ensaiávamos, com nossos coloridos desenhos, a vida futura e já nos revelávamos: casas com janelas abertas como um sorriso, limitadas por minuciosas cercas com flores ou com espinhos, protegidas por frondosas árvores aos pares, como pais. Árvore que dava todos os frutos, só para ficar mais colorida. Ou casinhas abandonadas, escuras e vazias na floresta, à espera de um encanto, uma fada ou um duende de jardim.
Se em nossas brincadeiras, corríamos ou nos escondíamos, se escolhíamos ser mocinhos ou bandidos, heróis ou transgressores, aventureiros ou tímidos, estávamos, sem saber, tirando fotografias para o baile de fantasias dos papéis que viveríamos na vida.
Esse é o jardim da infância.
Lembro de Rilke, aconselhando ao jovem poeta: “caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga a si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer á tona as sensações submersas deste passado vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros”(RILKE,2009 )
A infância é relíquia constituída de lembranças guardadas. Mas, como uma parábola, seu registro são histórias sempre revistas, recontadas e modificadas, conforme o tempo e as nossas vivências. A infância é parte de nós e parece massa de modelar.
Não podemos jamais ter a certeza dos acontecimentos, porque nossa memória usa lentes coloridas, com cores que variam conforme o tempo; por isso, os eventos importam menos do que as interpretações que deles fizemos e que deles ainda faremos, no curso da vida.
Nossas lembranças, criadas com os personagens, enredo, trama, drama, final feliz ou triste são as histórias às quais, ao longo da vida nos reportamos, para dizer quem somos. De nossa infância importa muito mais o que se conta, revelando o nosso presente, do que aquilo que de fato vivemos. Somos personagens de nossos dramas, mas também somos, de nossa história, os contadores.
Acontece que costumamos valorizar, nas nossas lembranças e histórias, as feridas da infância, com suas chagas nunca cicatrizadas. Carregamos a criança ferida que pede cura e nas suas queixas, revive o enredo, numa repetição que não escolhe fazer, mas que pode vir a ser uma maneira de inventar outro fim. Repetir pode ser uma forma de superação, desejo de uma nova criação.
Porém, a repetição das experiências com outros personagens e novos cenários, é um monótono sofrimento, que indica uma mudança que ainda não foi feita na história em que somos sempre protagonistas.
É preciso acolher essa criança ferida, escutá-la e lembrar-lhe, caso esteja esquecida, que as quedas também faziam parte das brincadeiras da vida.
E se somos contadores e personagens, é importante recordar a criança feliz e viva dentro de nós, que se deixava levar pelas descobertas, naquele jardim.É essa a criança que há muito tempo cultiva, em silêncio, coloridas flores da Alegria, da Coragem. Flores da Liberdade, Autenticidade, Criatividade, Confiança  e Afeto. Foi ela que nos ensinou sobre o Amor, o Desejo e a Persistência. Foi ela quem acreditou no futuro como um lugar para assistir ao reflexo do que no jardim da infância cultivou.
Nesse jardim podemos descobrir não apenas o lugar de nossas quedas, mas os atalhos para o que hoje somos e amamos, porque foi lá que ficou escondido o mapa de nosso tesouro.
Que possamos viver de forma tal, que celebremos a criança feliz que fomos e que possamos imprimir, com seus lápis de cor, tanta vida, que ela possa nos ajudar a contar e a redesenhar a nossa história.


Susana Meirelles






REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA


RILKE, Rainier- Cartas a um jovem poeta; tradução de Pedro Sussekind- Porto Alegre;L&PM, 2009

domingo, 1 de julho de 2012

Relógio de Areia


És um moço tão bonito
quanto a cara de meu filho,
tempo, tempo, tempo tempo.
Vou lhe fazer um pedido.
(Caetano Veloso)


O tempo, esse mistério sem medidas, sempre foi um desafio para o homem que precisava - ao longo do tempo - controlá-lo, enquanto nele vivia.
A contagem do tempo pressupõe a consciência da finitude. Marca a que todos estamos submetidos, cujo confronto ou aceitação fuga ou negação, coloca-nos em dores e alegrias ao longo do tempo. E inventar uma medida, talvez sempre tenha sido, uma forma de controle desse intervalo de tempo, a que chamamos vida.
Dia e noite. Estações do ano, frio e neve. Sol, frutos e flores. A posição das estrelas. Quantas horas já inventamos?
Criamos o relógio das águas, das estrelas, o relógio do sol e relógio de areia. Foram muitas as medidas do tempo. Mas será que hoje, dono de nossos relógios modernos, já sabemos medi-lo? Será que, um dia, seremos  do tempo, seus senhores?
Qual a nossa medida de tempo?
Às vezes medimos o tempo pelos grandes acontecimentos e a vida parece ser uma corrida para alcançar um ou dois casamentos, formatura e aposentadoria. Três tempos ou um pouco mais. E os intervalos? Deixamos que se vão, como areia entre nossos dedos, pois o relógio das estrelas não nos permite viver o doce cotidiano, as delicias do presente que tornam o tempo dilatado, porque não marcado apenas por acontecimentos esperados, que logo depois de alcançados, nos trazem o triste sabor da finitude e por isso, reiniciamos indefinidamente a contagem.
Quando medimos o tempo pelos nossos relacionamentos, não consideramos o tempo de solidão, como se este fosse apenas intervalo. Contamos as pessoas que passaram em nossas vidas sem notarmos que elas refletiam as nossas estações; não contamos os momentos em que estivemos a sós, quando o tempo esteve tão próximo e ao nosso lado, esperando para ser aceito e utilizado em nosso crescimento.
Medido pelas nossas conquistas, o tempo nos dá a medida da nossa capacidade, mas não da felicidade, que parece escorrer no relógio das águas.
Sonhamos em parar o tempo como se assim aprendêssemos a nele viver. Dizemos que a vida está passando rápido demais, sem notarmos que somos nós - e não a areia do relógio que criamos- o  que desliza para o futuro, insistentemente.
Quando acreditamos que suas águas nos conduzem tão lentamente, não será por termos nos apegado à rocha do passado, esquecendo que, como água, temos a capacidade de nos entregarmos à vida, fluindo e deslizando ao sabor das nossas experiências?
Não será o presente a única e verdadeira medida do tempo?
Quando enchemos dos grãos da areia das nossas expectativas a nossa medida de tempo, tudo se vai com a rapidez do não vivido, uma vez que, nada acontece se só valorizarmos o inalcançável, o que está lá, bem distante, próximo às estrelas.
Ó tempo, vou lhe fazer um pedido: permita-nos gerá-lo amorosamente, como um filho para o mundo e não se deixe prender por nós, mas também não nos escape. Ó tempo, não represente apenas a nossa sobrevivência , mas a nossa passagem e não se permita mais ser contado por nós, pois ainda não sabemos como fazê-lo, mas nos contabilize- ó Tempo -  como  participantes da bela aventura da vida.
 Pois vida é esse relógio de areia marcado por um inicio e por um fim, cujo intervalo, poderá ser medido de acordo com nossos frutos e nossa colheita, nosso sol e nossa chuva; nossas passagens e nossas estações, as flores que cultivamos e as estrelas que nos encantam, sem temermos o seu fim.


Susana Meirelles






quinta-feira, 14 de junho de 2012

O Amador


Quando alguém não domina uma técnica, uma arte ou um ofício chamam-no amador. Ainda não profissional, é amador. Também, todo aquele que exerce uma profissão por gosto, por puro prazer, é amador. Para o amador não tem ensaio, não tem acerto nem erro, não tem salário nem cansaço. Por tudo isso, quem ama é amador.
Há, porém, os profissionais. Profissionais do amor.
O colecionador, que enumera suas conquistas, imaginando que assim encontrará o seu valor,sofre pelo que acredita. Será que precisa ter tanto para ter um pouco de amor?
 O calculador, que - com a liberdade medida por quanto pode ser declarado, revelado – se dá numa entrega calculada, ilude-se, sim, pois não conquista o amor, já que este, sem cálculo, surpreende em situações e pessoas que ele não prevê. Acredita precisar ser muito, para ter um pouco de amor.
O avaliador não crê que ele (nem ninguém) seja o bastante: nunca tão belo ou tão atraente. Busca a si mesmo, refletido no olhar do outro. Sua dor é a de acreditar que precisa mostrar-se perfeito, para ter um pouco de amor.
Eles colecionam, calculam e avaliam as dores. Do amor, importam-se com as dores: a rejeição, a vulnerabilidade, a desvalorização.
São “ama-dores”.
O amador entrega-se, sem temer. Ainda que sofra por um telefonema que não chega, pela palavra que não foi dita, pelo mal-entendido, pela interpretação que foi feita, pelo não esclarecido. O amador entrega-se, mesmo que seu tempo fique marcado no compasso das sístoles e diástoles: Tempo de encontro, tempo de desencontro; tempo perdido, tempo recuperado. Ele bem conhece esse compasso.
Alguns Amadores tornaram-se imortais através da escrita. Talvez o amor lhes tenha transcendido e seus personagens atravessam o tempo. Alguns cantaram a beleza do amor, outros as suas dores. É desse tempo assim demarcado - tempo da dor e do amor - que Machado de Assis fala, do encontro com o amor, na voz de Dom Casmurro:


Retórica dos namorados. Dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade de estilo, o que foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que dá idéia daquela feição nova... (Assis, 1955,p.110)

A idealização, a supervalorização da pessoa amada, o sentimento de ter pouco valor e o temor de onde isso irá levar parece ser a origem da dor do amor.

...Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me (Assis,1955, p.110)

O amor, descobrimos sem ensaio. Surpreende-nos. A sua busca ansiosa mais o faz afastar-se; mas, espontâneo, ele se revela onde não esperamos. A sua presença transforma em futilidades os problemas do cotidiano e tudo o que gravita em torno do ser amado adquire uma aura de encantamento. A alegria do encontro torna-se um marco no mapa que, a partir daí desenha-se, e sua lembrança, tão intimamente comemorada, torna-se uma história frequentemente recontada em seus acasos e encontros, como um evento que segue uma destinação superior. 

Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida; eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse faltava-me língua. Preso atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas (Assis,1955,p.114)

Amar, para Roland Barthes, é “a festa, não dos sentidos, mas do sentido”. É a felicidade de ter encontrado alguém que, “por sucessivos e sempre bem-sucedidos toques, acaba o quadro da fantasia”, como um jogador “cuja sorte se confirma fazendo com que ele pegue na primeira tentativa, o pedacinho que vem completar o quebra-cabeça do seu desejo”. (Barthes,2000,p128)
E se nada é mais belo do que apaixonar-se, do mesmo modo, nada parece despertar maior medo. Amar é uma viagem para dentro de si, e entregar-se ao encontro é a coragem de ver-se na sua verdade, como uma cena diante do espelho.

Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com um pente, desde a testa até as ultimas pontas, que lhe desciam á cintura... (Assis,1955,p.112)

O inicio do amor é o da descoberta maravilhada das afinidades, das trocas. Ambos querem se mostrar um ao outro. A pessoa amada torna –se em tudo original. Única. Por isso, engana-se quem  acredita na forma perfeita para ser amado, pois o amor não começa nem termina nas qualidades ou defeitos do outro. Engana-se quem acredita que precisa ser especial para ser amado, porque é por sermos amados, que nos tornamos especiais.


...Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de oficio, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis... (Assis, 1955, p.112)

É preciso saber que viver o amor é iniciar um caminho longo para dentro de si.

...Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. (Assis, 1955, p.113)

O “ama-dor” sai em busca do amor tecendo duas tranças intermináveis: a fantasia do romance ideal e a ilusão de que o outro completaria as suas faltas. Compara-se com um ideal que nunca poderá realizar. Insiste que algumas facetas suas não podem ser conhecidas nem merecem ser amadas. Por isso, a entrega é sentida como um risco, um empobrecimento de si. Espera do outro o que ele não pode oferecer. As suas conquistas nada preenchem. O “ama-dor” é frequentemente atormentado pelo medo: de perder ou de perder-se no amor. A idealização que constrói a respeito de como deve ser o amor e a pessoa amada impede-o de enxergar que o ser humano que está nesse momento ao seu lado é a pessoa perfeita, por revelar quem ele é e por fazer parte da trama que é formada no caminho para amar.
O amador vive o amor que descobre no espelho que se situa um pouco além da pessoa amada. Pois é no encontro consigo, na aceitação das suas faltas jamais preenchidas pelo outro, que é possível descobrir como é amar verdadeiramente, trançando, diante do amor, uma felicidade real, junto com suas inevitáveis dores.
Creio que os amadores já compreenderam o que escrevo. Todavia, para os “ama-dores”, recomendo que leiam devotadamente a história de Dom Casmurro.
Para amar, é preciso ter a coragem de tornar-se alguém capaz de se aceitar, tornando-se uma pessoa não completa, mas inteira, como aquela palavra que une amor e dor: Amador.



Susana Meirelles







REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ASSIS, Machado-  Dom Casmurro vol. 7,  Obras Completas de Machado de Assis- W.M. Jackson Editores, São Paulo, 1955


BARTHES, Roland,-  Fragmentos de um Discurso Amoroso,  15º edição, Francisco Alves Editora, São Paulo, 2000.



domingo, 3 de junho de 2012

Cordeirinhos

Acreditamos tanto na felicidade que nossas experiências de vida nos trazem, que elegemos algumas, fazemos uma lista e nos convencemos de que só quando as alcançarmos estaremos bem. Porém, não percebemos ser esta, uma forma de adiarmos indefinidamente a vida que desejamos.
Há ainda outra lista sobre a qual não ousamos falar, nem olhar, pois é composta pelas experiências que tememos enfrentar. Diante delas, cercamo-nos de muitos cuidados para evitá-las e nos mostramos precavidos, quando , na  verdade, sofremos pelo medo. Quando somos prudentes, evitamos um risco real, todavia, no medo, o risco é inspirado pelos nossos fantasmas.
Na vida, há experiências que podemos evitar, enquanto outras parecem ser muito maiores do que nós e do que a nossa pequena vontade de sermos felizes apenas como idealizamos. Nesse nosso mundo, onde a felicidade parece garantida por cartões de acesso a facilidades, esquecemos o quanto é exatamente por meio da superação que podemos encontrar o que tanto buscamos. Por isso, nosso cartão de acesso à felicidade, às vezes, é a dor.
Somos confusos em relação ao poder que temos. Acreditamos, muitas vezes, que podemos mudar bem pouco do que estamos vivendo, quando, na verdade podemos mudar muito; outras vezes, sofremos por interpretarmos como impotência nossa, o que se trata de uma impossibilidade real.
O tempo nos mostra que há momentos em nosso percurso, em que a única coisa a ser feita é nos conformarmos como cordeirinhos mansos, confiando que a vida, como um bom pastor, nos conduzirá a um lugar seguro depois que caminharmos por alguns vales. 
A renovação nos alcança como o outono surpreende o verão. E ela pode vir disfarçada na doença, na perda, no luto, na dor. Cabe-nos o trabalho de transformação: o de nos conhecermos através daquela experiência; Cada vivência, se bem assimilada, nos prepara para a próxima. No entanto, ao fugirmos da mudança necessária, a experiência seguinte pode ser mais difícil de ser vivida.
Precisamos compreender que felicidade não é estar alegre a todo o momento como nos fizeram crer. Talvez seja a conquista da serenidade, seja qual for a experiência pela qual estejamos passando. Mas, infelizmente, não é sempre que nossa vontade míope alcança a beleza da primavera além do esquadrinhamento da janela por onde vemos o mundo.
A vida é sempre maior do que o que acreditamos e desfila por caminhos que a nossa previsibilidade desconhece. Tudo aquilo que dela ainda não  assimilamos, pode ressurgir com mais força, para nos lembrar dos compromissos com a mudança que nós tanto desejamos.
Precisamos aprender a confiar na vida e em seus caminhos. E, Mesmo que andemos pelos vales da sombra e da morte, não temeremos mal algum, pois teremos confiança nos recursos que a vida oferece sabendo que ali pode estar a oportunidade tão almejada.
Portanto, guarde a sua lista de sonhos e acredite nela, mas encare também os seus medos. E quando uma experiência mais difícil surgir, acredite que ela pode ser o vale que lhe conduzirá àquela montanha linda e azul, logo ali... adiante.




Susana Meirelles



sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Voo dos Sentimentos

Sentimentos são difíceis de definir: talvez por excesso de  sensibilidade, eles prefiram não ser incomodados com as nossas perguntas. Certamente, porque perguntas são habitantes do reino da razão e os sentimentos vivem no reino da sensibilidade. Nós é que necessitamos unir os dois reinos pela ponte das palavras. Acontece que, muitas vezes, teimamos em usar as palavras, não apenas como um transporte, mas para traduzir, explicar, adaptar em conceitos o que é para ser apenas ...sentido.
Eu já lhe disse? As palavras são como pássaros, embora não sejam suas letras a alçar voos, mas, sim, os sentimentos que as acompanham. São eles que inundam as palavras , e delas transbordam, transformando-as em pássaros. Todo poeta sabe o quanto os sentimentos ultrapassam as palavras, já que, por serem poetas, frequentemente  assistem ao momento em que esses belos pássaros libertam-se, em revoada, com suas asas abertas, da tinta, do papel , do livro onde estavam inscritos.
Rilke, usando palavras cheias de sentimento, escreve cartas a um jovem poeta. Em uma delas, esclarece: “as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se no espaço que nunca uma palavra penetrou , e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas , cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.”( Rilke,2009) 
            Nós, que não somos poetas, e temos vidas que passam, vivemos da ilusão de que um dia encontraremos as palavras certas onde se encaixarão todos os sentimentos. Acreditamos nos organizar explicando tudo. E, às vezes, nem reparamos que, quando tentamos arrumar os sentimentos dentro das palavras, eles nos escapam e desaparecem como por encanto.
Ah! Mas como insistimos em afugentá-los!
Quando Saudade, branco como a pureza do encontro, vem, lentamente, sobrevoando o nosso peito cansado, começamos as perguntas geográficas:" De onde vinha? Para que vai? Vai voltar?"
Quando melancólicos, Tristeza vem, com as suas asas cinzentas - ternamente - para dentro do nosso coração; assustados, fazemos as perguntas históricas: "Por quê ?  Como foi o passado? Como será o futuro?"
Se Alegria, veloz e com suas penas das cores do arco-íris, aproxima-se, saltitante, desejando habitar em nossa alma, já lhe entristecemos com nossas questões gramaticais: "Descreva,  narre, interprete".
Se Amor, cor-de-rosa quente e delicado, aponta no horizonte, que repentinamente se torna mais belo, já começamos com as perguntas matemáticas: "Quanto?  Quando começou? Quando acabará?"
Psiu! Amando, feche os olhos sob as estrelas, em silencio, e sinta o amor  dentro da sua alma.  Apenas sinta. Não busque perguntas para explicá-lo ou poderá perdê-lo. É assim que ele vai tomando corpo dentro do seu peito e o sentimento  agitará as suas asas e o transportará suavemente. Se você permitir, ele voará de mansinho,  indo direto ao coração daquele que é amado por você. Continue de olhos fechados, respire fundo e experimente o que o amor pode fazer, no silêncio das perguntas. Não o incomode. Aceite a transformação em  sua vida, antes vazia e sem cor. Sinta. Não pense, para que as perguntas não comecem a invadir o reino dos sentimentos.
A palavra amor é o nome. Responde em parte às suas perguntas, mas note que, essas quatro letras reunidas não modificam e nem de longe alcançam, aquele transbordamento que há pouco você sentiu.
            Sentimentos não foram feitos para serem explicados nem rotulados. Eles gostam de flutuar, sobrevoar nossos pensamentos, tocar de mansinho no coração do outro e voltar aninhando-se  no coração onde moram. Eles gostam de voar livres e belos, com as asas bem abertas para a vida inteira.
Rilke aconselha ao jovem poeta, que lhe pergunta se seus versos são bons: " O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo, ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever”(Rilke,2009).
Os poetas sabem que sentimento não é reação ao que alguém nos provoca: é parte de nosso ser, que se propaga, exala, emana; é pássaro que nasce no  reino profundo e misterioso da nossa sensibilidade. Eles sabem que toda palavra transporta  algo que é colorido, belo e muito visível.  Em busca dessa visão, os poetas escrevem ...ou deixariam de viver.
Acredito que, se por uma unica vez, assistirmos ao voo dos sentimentos, ficaremos tão encantados, que renunciaremos para sempre a tantas perguntas e poderemos , libertos,  ler e sentir toda a poesia, escrita no livro que conta a nossa história.





Revisto e atualizado em 24 de maio de 2012

Susana Meirelles




REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA


RILKE, Rainier - CARTAS A UM JOVEM POETA; Tradução de Pedro Sussekind- Porto Alegre; L&PM, 2009