segunda-feira, 23 de setembro de 2013




MEUS PÁSSAROS




Quando a noite sobre mim descansa,
da janela eu os chamo
e aguardo.
Em asas de papel eu vou
até a ponta branca da lua,
e sentada, contemplo, paciente,
um silencioso céu
sem estrelas.

Pouco a pouco eles chegam
 Um a um, ou em bandos.
São meus laços, são  meus pássaros,
aqueles que ao longo da minha vida,
se fizeram mortos.
Os esquecidos, laços rompidos,
em mim marcados,
jamais abandonados.

Com eles permaneço
Toda a noite.
E rimos juntos
do engano dos homens
com seu tempo de memória
e de esquecimento.
Rimos juntos
do engano que há,
pois morte tantas vezes, se faz vida.
 E rimos juntos,
pois vida,
por tantas vezes, morte se faz.

São meus laços, meus pássaros  
tempo, lendas, mitos
tudo o que acredito,
minha história, toda memória.
Sem dor, a tudo  comtemplo.
Tudo de mim compreendo,
olhando -os tão Livres,
chuva de laços, de pássaros,
para mim olhando,
sorrindo.

Quando amanhece
e o sol vem chegando,
sentada na ponta da lua
eu os vejo partir.
Um a um ou em bandos.
Sim, as despedidas se refazem,
mas os laços, não,
não se desfazem.

Meus laços, meus pássaros
 nunca se foram.
Estão encantados,
 no ponto luminosos e terno ,
do eterno
que por puro amor,
em nosso encontro noturno,
torna-se nosso segredo
tão sagrado,
bem guardado.
Em minha doce brincadeira:
dobraduras, origami,
asas de papel.



Susana Meirelles

domingo, 21 de julho de 2013

Poesia em Imagens V- Soneto de uma Passagem

                                                                            

Respostas ao Desafio poético de Tânia Contreiras     
 


SONETO DE UMA PASSAGEM

Cheguei  no meio do caminho
No passado,  deixei o abrigo, o ninho
Até aqui carreguei  tudo o que acreditava
E de tão pesado, junto comigo, desaba.

Cheguei no meio da vida
Ouço a voz que me chama
o futuro convoca,  clama
E  a  vida não vivida convida.

Cheguei no meio do tempo
Mergulho no agora sem fim
Sombra e luz, em paz, convivem em mim.

Agora trago nos passos, apenas a passagem
Nos olhos, a  paisagem e nas mãos o amor à vida
Que me transporta, guarda e abriga.



Susana Meirelles









ENCONTRO MARCADO


O encontro das sombras
do que não quisemos ver
Com nossos desejos, 
brancos, nuvens
Surpreendeu-nos nesta manhã,
Em tempestade.

Agora, aqui, nus,
encontramo-nos sós,
Apenas enlaçados 
em nossos medos.

Assisto e aceito a sua ida
Contemplando quão árido é o chão
Que um dia acreditamos fazer florir
Nus, estávamos esquecidos
que a Primavera, com o inverno,
Um dia resgata a sua divida.

Quisera segurar um pouco mais
Sua presença luminosa
Meu amparo, meu amado abrigo
Seu corpo, seus ombros fortes 
E aquela paixão sem medidas
Que vejo desvanecer-se
Em sua boca, em suas mãos.

Mas em meio à tempestade
É sua a voz que me diz,
que agora o encontro marcado
é comigo.


Susana Meirelles




EX-ISTO


Porque falo
Calo
Já que bailo
Caio
Desmancho-me , sim
Me mancham
Mas se existo,
não desisto.


 Susana Meirelles

Poesia em Imagens IV - Pela Pele



Respostas a Desafios Poéticos de Tânia Contreiras

PELA PELE



Deixe estar
Que um dia,
Em mim há de brotar
Poesia pela pele
Pelos pelos
Pelos poros
Só para lhe ofertar.
E palavras suaves
Intensas , inteiras
Sobre mim
Sobre você
Sobretudo
Sobrevoarão.
Ah! Quando eu for
Inteiro um poema,
O amor afogado
Em coloridas asas
Se revelará.
E transformando
Dor em poesia
Pelos poros
Pelos pelos
Pela pele
O nosso amor,
Sobreviverá

Susana Meirelles





SÓ E CINZA

Se um dia eu for só cinza
Se um dia eu for só
Se um dia eu for
Se um dia
Um dia

Lembra-me
Lembra-me do azul
Lembra-me do azul daquela  estrela

Daquela estrela
Estrela que nesta noite
Nesta noite ao lado teu
Ao lado teu descobri
Descobri cintilando
Cintilando em  mim.

Se um dia eu for só e cinza
Se um dia eu for só
Se um dia eu for,
Lembra-me
de mim.


Susana Meirelles




DUAS FACES


Botão de rosa
Flor da ausência
Registro sinistro,
Presença sem face
Da dor da sua falta
em mim.

Botão de rosa
Flor da presença
Fio de vida
Que desabrochará
na ausência da sua face
na dor da sua falta
em mim


Susana Meirelles






Ramos

Nas veias,
A história é seiva
Pulsa
Pulsa em  dor
Pulsa em amor

Nas linhas
o destino é Ramo
enrama  a dor
enrama o amor

Nos olhos, desejo é luz
Vida é Flor
Em pétalas de amor e dor.


 Susana Meirelles


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Poesia em Imagens - O Portal

Imagem: Sarolta Bán


Em torno do silêncio construí minha morada
Lá, escuto as palavras dos outros
 Só e mudo, vivo
Guardando portais.
De dia atendo àqueles que me procuram,
E me confiam as suas chaves
Em silêncio ,mergulho no infinito
que há em cada um.
Ouço suas palavras: lendas, viagens, conquistas
mitos pessoais,  histórias apaixonadas
contos de fadas,  
e alimento-me da beleza e das ilusões 
com que os outros escrevem suas fábulas.
Ah! quanta paz!
há no silêncio onde fiz minha morada.
De lá, capto olhares, a tudo fotografo:
Lágrimas, gargalhadas,
Gestos, lapsos, mãos inquietas.
inveja, ciúme,
(Vejo as sombras).
A tudo escuto,
sobretudo, palavras.
À noite assisto as palavras sonolentas
são  como argila, as modelo.
Arrumo, desarrumo, desmonto, refaço,
divirto-me com elas,
aproveitando todo o sentimento
com que estão imantadas.
Faço poemas com palavras adormecidas,
olho para elas, me admiro.
São como filhas, orgulho-me delas,
(e de mim, por criá-las tão belas).
 Quando adormeço,
 faço-me ponte, passagem
asa, viagem
(Palavras são imagens).
Suas histórias vivo,
choro, comemoro,
com o sonho faço acordo
e plácido, acordo.
Tudo isso no silêncio onde fiz a  minha morada.
E porque,  em silêncio, guardo o portal,
segredos, tão sagrados, falam
na mesma medida em que me calo.
E a chave, meu enigma, pesa
na mesma medida do tempo.
Só quando de amor me embriago,
palavras me atravessam,
tornam-se chaves.
E, então, eu falo...como falo!
 com minha voz, eu sou,
e posso escutar
toda a verdade contida,
no silêncio onde fiz a minha morada. 
Não hesito: Vou
giro a chave.
Um pouco morro, renasço.
Vou para o outro lado.
O portal  passo.




Susana Meirelles
(Resposta a Desafio poético Tânia Contreiras)











terça-feira, 9 de julho de 2013

Bem-te- vi






Bem - te - vi

a José Leal , meu pai

Quando a ternura ganha força e coragem
Invade, com suas asas, espaços
Entra por todas as janelas na manhã ensolarada,
que pede cuidados
para plantas, pássaros
e meu coração.
Vontade de descansar da vida
em alguma rede branca na varanda antiga,
onde guardo o passado
revivido.
Meu pai me chamando no jardim
Meu pai me convidando,
a cuidar de suas flores no jardim.
Hoje, eu o convido,
e sei que  aqui ele está
nessa presença intensificada
pela falta.
Sim , é ele
Reconheço pelo ar de ternura
que sempre anunciava a sua vinda,
pela espera doce
e a certeza da presença.
Sei que é ele que encontro
Nas asas daquele bem te vi
que olha por mim
exclamando palavras suas:
-"Bem te vi
Bem te vejo
Te verei bem"
São  as palavras delicadas,
como aquelas asas
e como as cores que escolho
para esses sentimentos.
Para falar dele,
nunca digo tudo,
silencio o coração
que, cansado,
busca o  conforto que os pássaros
podem oferecer.
Embarco nessas asas
sobrevoando o passado.
Quanto ao futuro,
trago de lá as manhãs eternizadas,
onde ele se encontra,
e meu coração
canta para ele ouvir:
"-Tanto bem te quis
Todo o bem, por ti
quero
Tanto quero ver-te
Bem.
Meu pai ,
meu bem-te-vi,
Bem 
te
 vivi".


Susana Meirelles




domingo, 9 de junho de 2013

Poesia em imagens II- Poemas de um Beija-flor





Poesia em Imagens II- Poemas de um Beija-flor
Desafio Poético de Tânia Contreiras


POEMA DE UM BEIJA FLOR


Eu sou aquele
que colhe das manhãs
Os sumos de sua beleza.
e de luz, cego, sigo,
Sorrindo, digo sim
a todos,
e a tudo vejo,
com olhos de beija flor.

Leve,
levo
por onde vou,
seus sumos,
na pele,
perfumes
Sua essência ,
seu calor.

Nossos segredos em  tons de rosa,
(Guardo, mas extravaso).
E de rosas delicadas,
Faço calendários.
Os dias, claros  dias,
Tornam-se pétalas multicor.


Vou passando,
Pétala
por
pétala
vou  deixando,
vou
vou
voo
Multiplicando
um pouco de você
Em tudo,
Em tudo
em tudo.
(Quase tudo de mim).

Alguns amigos, olham, cismam.
Outros  sorriem e se calam
Pois reconhecem no olhar alado,
Na fala suave,
e no perfume de jasmim,
Que começo meus dias
Todos os dias,
num jardim.



Susana Meirelles





  

P A S S A P O R T E

Busco-lhe  entre minhas paredes
impregnada está toda a casa
Da sua presença.
Seu cheiro no meu corpo
Ainda sinto, atravessando-me
Nas almofadas, seus fluidos
Seus suores, úmidos
Nossas palavras ainda ecoam
E nos corredores, falam-me.
Além da  geografia,
Que muito nos engana,
No meu corpo- passaporte,
sua imagem é  fotografia.
Por isso  passo a  porta
Erguida pelo medo
Atravesso minhas fronteiras
e nesse  voo
até você
 vou.


Susana Meirelles






VERDE MUNDO



Azul é o mundo de todos,
Só o meu é verde
Seu olho, meu mundo,
Perdido num branco universo
Cheio de estrelas.

Seus oceanos salgados
Mares bravios, agitados
Tão verdes que me tragam,
Ou mansos lagos
Seus ritmos.
Marítimas são suas correntes
Cativantes.

Sua terra,
Continentes, trópicos
Câncer e capricórnio
Suas linhas e nossos signos,
Nos orientando
Localizam o chão
Firme, onde piso.

Quero a força verde de suas matas
Quando quase morro
amo suas florestas
 mistérios e pântanos
 adensando-me
suas ilhas,
Guardando-me

Conheço todos os  verdes
Em  diversos matizes
 dos seus humores
seu húmus
seus sumos
suas raízes onde corre
seiva antiga
que faz crescer as avencas
de seus gestos contidos
e os girassóis,
que tão bem revelam
quem sou.

Mundo verde,
Desperta, olha,  
e me fale um pouco mais
sobre a Esperança.

Gira meu mundo
Gira o tempo
Giram todos os sóis
Pois quando ,distraído
você adormece,
Eu  giro só
Em torno
De sua órbita.


Susana Meirelles







ESPERA




Sua voz ao telefone
A minha voz emudece
No entanto, nos fios
do tempo  dessa espera
meu coração em festa,
Floresce



Susana Meirelles









APENAS



Apagam-se as penas.
Em silencio,
à pena escrevo
a sinfonia do seu corpo
tocando
O meu.
Leve
Leve
Leves
apenas
somos.
Ah! Como pena,
Toca-me.
Como pena,
Sinta-me.
Como leve pena,
leve-me.
Apenas.




 Susana Meirelles







Futuro do pretérito


Eu colheria lágrimas
gotas suas de orvalho,
até recolher toda a dor.
Atravessando  sua insônia
como lua, eu serenaria.

Eu acalmaria seus temores
Acolhendo-os no morno regaço.
Abriria janelas para despertar a sua coragem.
Como  manhã, como mãe,
eu amanheceria

Eu escutaria seus anseios
Ajudando-o a descobrir
um a um de seus desejos,
para um dia  com você  viver.
Um a um de seus sonhos,
eu cultivaria.

Eu embelezaria sua vida
com pétalas coloridas
das coisas que não se findam.
Com perfumes, com prazer
só para você,
Eu floresceria.

A mais bela das poesias
Para você eu seria.
Com o mel dos versos gentis
Rimando e amando
toques suaves  com palavras delicadas.
Sua vida, eu adoçaria.

Eu caminharia ao seu lado
Por pedras e campinas
espalhando sementes no caminho
até colher fruta no pé.
Com você, dia a dia,
eu amadureceria.

Eu viveria ao seu lado
Sob a chuva , sob o sol
Tão bela ,que aos olhos se agiganta,
Ou diminuta se torna
ao seu lado, eu viveria.
Até que num fim de tarde,
como flor,
nas suas mãos,
de pura alegria
eu feneceria.




Susana Meirelles










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